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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

USP desenvolve vacina contra tumores e lesões do HPV

Pesquisadores da USP desenvolveram uma vacina contra tumores e lesões pré-cancerosas causadas pelo HPV.
O vírus é responsável por tumores de colo do útero, cabeça, pescoço, ânus e pênis.
Diferentemente das vacinas disponíveis hoje na rede privada, que impedem a infecção pelo vírus, a novidade seria indicada para quem já se infectou e desenvolveu alguma lesão.
A imunização induz as células de defesa a reconhecer lesões e tumores desenvolvidos a partir do HPV 16 e atacá-los. O tipo 16 do vírus é um dos que mais causam câncer.
O estudo foi apresentado ontem por Luís Carlos Ferreira, professor da USP e chefe do laboratório de desenvolvimento de vacinas da universidade, na 26ª reunião anual da Fesbe (Federação de Sociedades de Biologia Experimental), que vai até amanhã, no Rio de Janeiro.
Os testes foram feitos em roedores, mas já há planos de realizar estudos clínicos em humanos daqui a um ano e meio, no HC de São Paulo.

EFICÁCIA
Segundo Ferreira, a vacina é a mais eficaz do tipo já criada. "A vacina conseguiu reverter em 100% as lesões e os tumores com só uma dose."
Ele afirma que será possível produzir a vacina a um custo menor do que o da atual, que sai por R$ 900.
O pesquisador lembra que grande parte da população já teve contato com o vírus -estima-se que, até os 50 anos, 80% das mulheres serão infectadas por algum dos mais de cem tipos de HPV.
"Para muitas pessoas, uma vacina não preveniria mais contra infecções e seria mais eficiente se curasse lesões e câncer", afirma.
Cerca de 90% das lesões são eliminadas sem necessidade de intervenção, mas algumas delas levam ao câncer.
Para o câncer de colo do útero, o tratamento pode ser por cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou uma combinação deles.
Ferreira diz que, no futuro, a imunização poderá se somar ao rol de tratamentos, especialmente nos casos mais avançados de tumor.
Max Mano, professor-assistente de oncologia da USP e médico do Icesp (Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira), diz acreditar que o desenvolvimento de vacinas contra o câncer causado por HPV é promissor.
"É uma questão de tempo para desenvolvermos tratamentos de câncer ao investigar o papel da imunidade nesse tipo de doença."
Mas ele afirma que muitas vacinas fracassaram nos últimos 30 anos. "O que funciona em animais pode não funcionar tão bem em humanos, porque nossa imunidade é mais complexa."

MARIANA VERSOLATO


ENVIADA AO RIO
Folha de São Paulo

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Unicamp quer vida sintética capaz de produzir plásticos

Não é difícil resumir a missão das formas de vida que estão sendo projetadas por Gonçalo Pereira e seus colegas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O lema é transformar o petróleo em coisa do passado.
"Vocês devem ter queimado uns dez dinossauros só para chegar aqui", brincou Pereira com a equipe de reportagem vinda de São Paulo, referindo-se ao uso de combustíveis fósseis -feitos à base de criaturas mortas há milhões de anos.
A dependência energética em relação à gasolina e ao diesel está levando o planeta para o buraco com a mudança climática, lembra ele, mas há outros usos do petróleo que a civilização do século 21 não consegue dispensar. Plásticos, por exemplo.
A não ser que os velhos micróbios que, por exemplo, já fazem etanol para mover carros aprendam truques novos.
Um dos planos da equipe é "ensinar" micorganismos ou plantas a fabricar a unidade básica do polipropileno, molécula que é a base de embalagens plásticas, peças de automóveis e outros produtos.
Reforma da natureza
O objetivo da equipe é compartilhado com outros cientistas da área da biologia sintética, campo que prevê a criação de organismos para usos industriais, médicos ou agrícolas, por exemplo.
O objetivo de Pereira e companhia é um pouco mais modesto do que criar uma espécie nova do zero.
Sem necessariamente montar um genoma ou uma célula completa, a ideia é combinar diversos genes que nunca caminham juntos na natureza para fazer com que o micróbio (ou planta) produza algo que nenhum ser vivo gerou até hoje: o propeno.
Com gagueira
O propeno é uma molécula com três átomos de carbono e seis de hidrogênio. Ele é uma "letra" com a qual se constrói uma "palavra" química: o polipropileno.
A palavra seria uma "gagueira", formada por várias unidades de propeno, repetidas e grudadas. Os químicos chamam essa "gagueira" de polímero -um plástico.
A tarefa da indústria ficaria resumida a "colar" os propenos para montar o plástico. "A gente quer que esse organismo sintético coma açúcar e produza propeno", resume o pesquisador.
A indústria parece ter se interessado pelo desafio. A petroquímica Braskem, por exemplo, está investindo R$ 4,5 milhões no laboratório de Pereira entre 2009 e 2012 (leia texto abaixo, à dir.).
O desafio de fazer a vida produzir algo que só pode ser extraído de combustíveis fósseis não intimida o cientista.
"A gente sabe que uma proteína [cujo código está contido no DNA] tem regiões mais ou menos independentes, com funções específicas, os chamados domínios. A gente consegue construir uma proteína nova, combinando domínios, que faça uma coisa que a natureza não fez", afirma ele.
Essa proteína poderia, por exemplo, picotar moléculas orgânicas até que elas virem o desejado propeno.

REINALDO JOSÉ LOPES
Folha de São Paulo