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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cisne Negro: Cinema, psicoses e neurônios reprogramados

Em sua coluna de estreia, o biólogo Stevens Rehen aproveita o lançamento do filme 'Cisne Negro' no Brasil para falar das origens, desenvolvimento e efeitos da esquizofrenia, doença que atinge 1% da população mundial. 



Natalie Portman em ‘Cisne Negro’. O filme, que estreia no Brasil no dia 4 de fevereiro, fala sobre situações que podem desencadear psicoses, transtornos mentais caracterizados por deterioração afetiva e perda do contato com a realidade. (foto: divulgação) 


O enredo do longa-metragem, dirigido por Darren Aronofsky, gira em torno do primeiro surto psicótico de Nina (Natalie Portman), dançarina que luta para se firmar como figura central de uma companhia de balé que ensaia uma nova versão do Lago dos Cisnes.
Cisne Negro é um retrato cinematográfico sobre situações que podem desencadear psicoses e, a reboque, suscita o interesse dos espectadores a respeito da esquizofrenia, um dos mais misteriosos transtornos mentais.
A incidência da esquizofrenia na população mundial é de 1%, com homens e mulheres igualmente afetados. Há mais pacientes esquizofrênicos do que doentes com Alzheimer ou esclerose múltipla, por exemplo.
Os prejuízos sociais decorrentes do desenvolvimento da esquizofrenia são bastante significativos. A doença é caracterizada por delírios e alucinações que levam a uma deterioração afetiva e perda do contato com a realidade.
Os primeiros sintomas surgem na adolescência e começo da vida adulta. Há um forte componente genético associado à enfermidade, que, entretanto, não explica a maioria dos casos. Infecções virais durante o período perinatal, desnutrição materna e disfunções do sistema imunológico também são fatores de risco.
Atualmente, é considerada uma doença do desenvolvimento, associada à má formação do sistema nervoso. Apesar de não existir uma teoria de consenso capaz de explicar suas causas, há indícios de que o estresse oxidativo tenha papel fundamental na geração da patologia.

Entre o bem e o mal

O estresse oxidativo ocorre quando as defesas antioxidantes de nosso corpo falham em controlar as espécies reativas de oxigênio geradas pelo metabolismo normal de nossas células. Para entendermos como essa condição biológica está associada aos transtornos mentais, é preciso que conheçamos o "paradoxo do oxigênio".
O oxigênio desempenha papéis contraditórios. É essencial para a vida e, ao mesmo tempo, pode ser tóxico. A molécula de oxigênio, formada por dois átomos, é quebrada durante a respiração, para a conversão de nutrientes em energia. Durante esse processo, subprodutos conhecidos como espécies reativas de oxigênio são gerados. Aí é que está o problema.

Espécies reativas de oxigênio são capazes de interferir em processos inflamatórios e na diferenciação de neurônios, mas estão principalmente relacionadas a modificações deletérias de macromoléculas como ácidos nucleicos, proteínas e lipídeos.
Infelizmente, em pacientes com esquizofrenia, elementos essenciais que normalmente reagem ao estresse oxidativo encontram-se comprometidos. Há relatos de disfunção do sistema antioxidante nesses indivíduos e de pequenas alterações em seus genes que reduzem a capacidade de se protegerem da ação danosa dos radicais livres.
Estudos em animais e relatos de pacientes sugerem, inclusive, que o aumento induzido nos níveis de radicais livres causa alterações cognitivas em indivíduos saudáveis e exacerbam psicoses em pacientes esquizofrênicos.

Cérebro frágil

Curiosamente, o hábito de fumar é até três vezes mais comum em pacientes esquizofrênicos do que na população em geral. Há indícios de que tal hábito seja uma tentativa inconsciente de compensar a carência de receptores para nicotina em seus cérebros. Por outro lado, o fumo reduz drasticamente os níveis de antioxidantes, comprometendo mais ainda a capacidade desses pacientes em lidar com o acúmulo de espécies reativas de oxigênio.
Devido ao alto consumo de oxigênio, o cérebro é mais vulnerável ao estresse oxidativo do que outros órgãos do corpo. Alterações de expressão gênica e de proteínas causadas por radicais livres comprometem a plasticidade neural e o funcionamento do sistema nervoso.
Já há antioxidantes que previnem ou aliviam distúrbios associados à esquizofrenia
Em concordância com essas observações, há uma relação entre a eficácia de sistemas antioxidantes e a severidade dos sintomas da esquizofrenia, o que pode levar ao desenvolvimento de novos medicamentos.
Já há, inclusive, descrições sobre antioxidantes que previnem ou aliviam distúrbios associados à doença. Sua utilização aumentaria a eficácia dos antipsicóticos, melhorando o quadro clínico de pacientes com transtornos mentais.

Múltiplo impacto

De fato, há evidências que todo o metabolismo energético esteja comprometido nessas pessoas. As mitocôndrias, organelas essenciais à respiração celular, também parecem alteradas nos pacientes esquizofrênicos.
Para a geração de energia, além de oxigênio, é necessário açúcar. Em 1919, F.H. Kooy descreveu um aumento na incidência de hiperglicemia em pacientes esquizofrênicos, sugerindo que comportamentos depressivos influenciariam os níveis de glicose no sangue.
Mais recentemente, pôde-se comprovar uma maior prevalência de diabetes com resistência à insulina nesses pacientes. Há novas pesquisas avaliando a aplicação de medicamentos antidiabéticos como co-fatores no tratamento da esquizofrenia.
As principais evidências de alterações bioquímicas dos sistemas antioxidantes associadas à esquizofrenia foram obtidas a partir de fragmentos cerebrais de pacientes já falecidos.


Neurônios reprogramados a partir de células da pele (na foto) de pacientes esquizofrênicos podem ajudar a explicar a influência do estresse oxidativo no desenvolvimento do sistema nervoso desses indivíduos. (foto: Bruna Paulsen/LaNCE-UFRJ)

O estabelecimento de novos modelos de estudo, como, por exemplo, neurônios reprogramados a partir de células da pele de pacientes esquizofrênicos, deverá contribuir para um melhor entendimento sobre a influência do estresse oxidativo no desenvolvimento do sistema nervoso desses indivíduos.
Sem revelar mais detalhes sobre o filme, o surto psicótico da bailarina Nina deve ter sido provocado por uma combinação de herança genética, abuso na infância, estresse ambiental e má alimentação.
Apesar de ainda serem necessários muitos estudos para comprovar o papel das espécies reativas de oxigênios como agente causador da esquizofrenia, cabe dizer que Nina deveria ter se preocupado um pouco mais com a dieta, optando por alimentos saudáveis, principalmente numa fase da vida de estresse ambiental tão extremo. Melhor prevenir do que remediar.

Stevens Rehen
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro
http://cienciahoje.uol.com.br
http://www.youtube.com/watch?v=qdGCu5bMi6w

terça-feira, 27 de julho de 2010

Biodiversidade nos formigueiros

Confira imagens de um besouro mirmecófilo passeando entre formigas lava-pés operárias




Colônias de formigas lava-pés também albergam outras espécies de invertebrados, como besouros, lacraias, ácaros e até artrópodes que permaneciam desconhecidos. Os estranhos no ninho usam um ‘disfarce químico’ para passarem despercebidos. 
As formigas lava-pés são muito agressivas e, a menor provocação, atacam com mordidas e ferroadas (foto: E. Fox).
As formigas lava-pés, também chamadas de formigas de fogo, são conhecidas pela dolorosa ferroada. Apesar da fama de agressivos, esses animais são capazes de conviver pacificamente com outros invertebrados dentro de seus próprios formigueiros.
A descoberta é de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, que encontraram em colônias uma vasta biodiversidade de organismos — muitos deles de espécies raras ou desconhecidas —, incluindo besouros, lacraias, ácaros, traças, moscas, percevejos, aranhas, cupins e até outras formigas.
As formigas identificam companheiras pelo olfato. Elas captam os odores da cera que recobre o corpo
Para não serem reconhecidos, é comum os inquilinos adotarem uma espécie de ‘disfarce químico’, usando ceras das formigas hospedeiras.
Segundo o biólogo Eduardo G. P. Fox, pesquisador do Laboratório de Entomologia Médica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, as formigas identificam companheiras de colônia pelo olfato. Elas captam os odores da cera que recobre o corpo desses insetos.
Ao habitarem as lixeiras e os cemitérios dos formigueiros, os inquilinos conseguem mimetizar esses odores, retirando hidrocarbonetos (compostos químicos que formam a cera) de restos de alimentos e cadáveres. “Observações nossas em laboratório mostram que essa estratégia é utilizada principalmente por algumas traças e besouros encontrados”, conta Fox.



Parasitismo ou mutualismo

Por enquanto, foram inspecionados apenas formigueiros das espécies Solenopsis invicta e Solenopsis saevissima encontrados no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas os pesquisadores já obtiveram indícios de que os mirmecófilos (os inquilinos) geralmente mantêm relações de parasitismo ou mutualismo com as donas do território.
Foram encontradas 24 espécies, das quais cerca de 10 ainda eram desconhecidas
Um exemplo é o achado, em conjunto com Eliana M. Cancello, do Museu de Zoologia da USP, de colônias de cupins pertencentes à subfamília Apicotermitinae. Como não há soldados entre esses indivíduos, a suspeita é que eles estejam usando as formigas para defesa.
Os pesquisadores se surpreenderam ao encontrar percevejos escavadores nos formigueiros, insetos raros e pouco estudados (foto: H. Wisch).
Até agora, foram encontradas 24 espécies de artrópodes associados aos formigueiros, das quais cerca de 10 ainda eram desconhecidas pela ciência. Uma espécie de traça, recentemente descrita pelos pesquisadores, recebeu o nome de Allotrichotriura saevissima.
Também foram descobertos um novo gênero de cupins e uma nova espécie de mosca sem asas. “Apesar de pouco explorados em estudos, os formigueiros têm muito a contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a biodiversidade do Brasil”, ressalta Daniel R. Solis, da Unesp.
Comuns em todo o território nacional, os formigueiros de lava-pés, nome popular dado a aproximadamente 20 espécies do gênero Solenopsis, caracterizam-se pela aparência de montinhos de areia, geralmente encontrados em jardins de casas e beiras de estrada.
As formigas são avermelhadas e têm comprimento que varia de 2 mm a 1 cm. De acordo com estimativas da Unesp, dos cerca de 3.500 acidentes registrados por ano em clínicas de São Paulo com ferroadas de insetos, quase metade é causada por formigas lava-pés.

Camilla Muniz
Ciência Hoje/RJ

Texto publicado originalmente na CH 272 (julho/2010)

sábado, 29 de maio de 2010

Álcool e jovens

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes é um problema que desperta preocupação no mundo todo. A discussão é de grande importância para a saúde pública, sendo necessária a atenção das autoridades, profissionais da saúde, pais e educadores

Por Arthur Guerra de Andrade / Natália Gomes Ragghianti / Lúcio Garcia de Oliveira

Shutterstock

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes (12 a 17 anos) e adultos jovens (18 a 24 anos) é um sério problema que desperta grande preocupação no mundo todo. Ao contrário do que muitos acreditavam no passado, na fase de transição entre a infância e a vida adulta, o sistema nervoso central dos jovens ainda se encontra em desenvolvimento. Desta maneira, suas vias neuronais podem se tornar mais suscetíveis aos danos causados pelo álcool, levando ao comprometimento de várias funções.
Em um período repleto de mudanças físicas, psicológicas e sociais, sob os efeitos do álcool, os jovens ficam mais propensos a comportamentos de risco. Nota-se, ainda, que uma série de fatores individuais, sociais e econômicos, principalmente a família e colegas, influencia o uso de álcool pelo jovem. No Brasil, segundo dados do II Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, 2005, cerca de 54% e 79% dos jovens de 12-17 anos e de 18-24 anos, respectivamente, já haviam experimentado alguma bebida alcoólica em sua vida (uso de álcool na vida). Nestas mesmas faixas etárias, a dependência de álcool foi de 7,0% e de 19,2%, respectivamente. Essas altas prevalências ilustram a relevância do tema em nosso país.

Pesquisa revela

Mais recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou uma pesquisa nacional entre estudantes da 9ª série do Ensino Fundamental (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2009, PeNSE), com média de idade entre 13 e 15 anos, e os resultados foram alarmantes. A taxa de uso de álcool na vida foi de 71,4%, sendo que 22% dos escolares responderam que já beberam até se embriagar.
Nos últimos 20 anos, observou-se que a exteriorização de emoções (comportamentos agressivos, impulsivos, ou descontrolados) e, em menor grau, a interiorização das mesmas (comportamentos ansiosos ou depressivos), duas características detectáveis na infância, são potenciais marcadores de uma predisposição para o uso precoce de álcool, que está associado ao histórico de consumo abusivo e de dependência de álcool. Por exemplo, foi estimado que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica, e que cada ano de atraso no início da ingestão de álcool seria capaz de gerar uma redução de 14% no risco para a dependência alcoólica. Assim, a idade de início do uso de álcool é um dos principais pontos de referência para avaliar os possíveis riscos de problemas associados. Em paralelo, vários pesquisadores sugerem que tal efeito seria decorrente do fato de que a idade de início modera a influência de outros fatores (hereditários e ambientais) sobre o uso dessa substância.
Em crianças submetidas a situações de estresse elevado, o início da ingestão de álcool é mais precoce e o risco de consumo frequente pode ser maior. Tal dinâmica pode ser observada entre as crianças em situações de rua no Brasil: constatou-se que 33% dos jovens de 9 a 11 anos de idade e 77% dos jovens de 15 a 18 anos de idade consumiam álcool.

"Estima-se que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica"


Shutterstock
Em crianças submetidas a estresse elevado, o início da ingestão de álcool é mais precoce e o risco de consumo frequente pode ser maior. Tal dinâmica pode ser observada entre as crianças em situações de rua no Brasil
Arthur Guerra de Andrade é médico Psiquiatra, Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Professor Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica, Faculdade de Medicina do ABC, Presidente Executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)

Natália Gomes Ragghianti é bacharel em Psicologia e Pesquisadora Assistente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)

Lúcio Garcia de Oliveira é biomédico, Mestre e Doutor em Psicobiologia pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atualmente é pós-doutorando pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP